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O orçamento da IA encontrou seu limite
EDIÇÃO #00215 Jul 202611 min de leitura

O orçamento da IA encontrou seu limite

Início/Edições/Edição #002

✦ NESTA EDIÇÃO

  • IBM mostra que o orçamento corporativo para IA não é infinito
  • Goldman Sachs confirma a volta dos megadeals
  • Shell avança sobre a ARC em uma operação de US$ 16,4 bilhões
  • Thomson Reuters separa o impresso para acelerar a estratégia de IA
  • Reflection compra mais de US$ 1 bilhão em capacidade da Nebius
  • Prazo tarifário Brasil–EUA vence hoje

A queda histórica da IBM expôs uma disputa silenciosa dentro das empresas: cada dólar colocado em chips, servidores e memória está deixando de financiar outra prioridade. Nesta edição, conectamos esse sinal à volta dos megadeals, à consolidação em energia e informação e ao risco tarifário para o Brasil.

Bom dia.

Existe uma diferença importante entre uma tecnologia estar crescendo e todo mundo que vende tecnologia crescer junto. Ontem, a IBM ensinou isso ao mercado da forma mais cara: quando clientes correm para comprar servidores, memória e capacidade computacional, o dinheiro precisa sair de algum lugar.

Essa é a linha que conecta a edição de hoje. Capital continua abundante para ativos considerados estratégicos — IA, gás, dados, distribuição —, mas ficou mais seletivo. Para quem lidera uma empresa, a pergunta deixou de ser “quanto investir em IA?” e passou a ser “qual orçamento será sacrificado para pagar essa conta?”

O número da manhã

US$ 1,2 trilhão. Foi o volume de fusões e aquisições anunciadas em que o Goldman Sachs atuou no primeiro semestre de 2026, segundo a própria instituição. O dinheiro voltou a circular, mas está procurando escala, infraestrutura e poder de distribuição.


1. IBM mostra que o orçamento corporativo para IA não é infinito

Arvind Krishna, presidente e CEO da IBM, durante o SXSW 2025

Foto: Bea Phi/WikiPortraits, via Wikimedia Commons — CC BY-SA 4.0. Imagem redimensionada, sem alteração de conteúdo.

A IBM antecipou parte dos resultados do segundo trimestre e reconheceu que não conseguiu reagir com velocidade à mudança no gasto de seus clientes. A companhia informou receita preliminar de US$ 17,2 bilhões, com software crescendo 5% e infraestrutura caindo 7%. O lucro ajustado por ação ficou em US$ 2,93.

O ponto mais importante não está apenas nos números. Segundo o CEO Arvind Krishna, nas últimas semanas de junho clientes direcionaram capital para servidores, armazenamento e memória, tentando garantir equipamentos antes de possíveis aumentos de preço. Grandes contratos de software e infraestrutura não fecharam no prazo esperado. As ações chegaram a cair mais de 20% durante o pregão.

Por que isso importa

A IA não criou um orçamento paralelo e infinito dentro das empresas. Em muitos casos, ela está disputando o mesmo caixa usado para software, consultoria, contratações e projetos de modernização. Isso muda a conversa de venda: soluções “interessantes” perdem espaço; soluções que comprovam retorno, reduzem custo ou protegem receita sobrevivem.

O que fazer no seu negócio

Antes de aprovar outra ferramenta de IA, obrigue o projeto a responder três perguntas: qual processo muda, qual indicador melhora e em quanto tempo o investimento se paga? Se a resposta for apenas “a equipe ficará mais produtiva”, ainda falta um caso de negócio.

Fontes: carta de Arvind Krishna aos investidores da IBM e Associated Press.


2. Goldman Sachs confirma a volta dos megadeals

David Solomon, presidente e CEO do Goldman Sachs

Foto: Goldman Sachs — retrato corporativo oficial de David Solomon.

O Goldman Sachs encerrou o segundo trimestre com US$ 20,34 bilhões em receita líquida, lucro de US$ 6,63 bilhões e retorno sobre patrimônio de 23,5%. A receita da mesa de ações cresceu 72% em um ano, enquanto as taxas de investment banking avançaram 55%, para US$ 3,4 bilhões.

Há um sinal maior por trás do resultado. O volume global de fusões e aquisições acima de US$ 10 bilhões atingiu recorde no primeiro semestre. O Goldman afirmou ter assessorado US$ 1,2 trilhão em transações anunciadas — cerca de US$ 425 bilhões acima do concorrente mais próximo.

Por que isso importa

Quando megadeals voltam, o efeito não fica restrito a Wall Street. Eles redesenham cadeias de fornecedores, concentram poder de compra e obrigam concorrentes menores a escolher entre especialização, parceria ou venda. O ciclo atual está especialmente ligado à busca por infraestrutura, dados e capacidade de IA.

O que observar

Se você vende para grandes empresas, acompanhe quem está comprando quem entre seus clientes. Uma aquisição pode congelar contratos no curto prazo, mas também abrir uma operação muito maior depois da integração. Mapeie hoje o comprador econômico e o patrocinador interno de cada conta relevante; ambos podem mudar após um negócio.

Fontes: resultado oficial do Goldman Sachs e Reuters.


3. Shell avança sobre a ARC em uma operação de US$ 16,4 bilhões

Instalação de gás e condensado da ARC Resources em Attachie, Canadá

Foto: ARC Resources — instalação de Attachie, Colúmbia Britânica; extraída da apresentação oficial a investidores do 1º trimestre de 2026.

Os acionistas da canadense ARC Resources aprovaram, com 99,54% dos votos, a venda da companhia para a Shell. A transação tem valor empresarial aproximado de US$ 16,4 bilhões e ainda depende de decisão judicial e de aprovações remanescentes. O fechamento é esperado para o segundo semestre de 2026.

A lógica da Shell é aumentar sua posição em gás natural na formação de Montney, no Canadá. A operação adiciona mais de 1,5 milhão de acres líquidos e cerca de 2 bilhões de barris equivalentes de petróleo em reservas provadas e prováveis, além de ativos próximos à infraestrutura que abastece projetos de gás natural liquefeito.

Por que isso importa

Enquanto parte do mercado fala apenas em transição energética, as grandes companhias continuam comprando reservas, infraestrutura e acesso logístico. A energia usada por data centers, indústrias e cadeias globais precisa ser firme e disponível agora; isso mantém o gás natural no centro da estratégia corporativa.

O que observar

Energia deixou de ser apenas uma linha de custo. Para negócios intensivos em eletricidade, ela virou risco de crescimento. Expansões, contratos de nuvem e novas unidades devem incluir cenários de preço e disponibilidade energética — não apenas projeção de demanda.

Fontes: resultado da votação divulgado pela ARC Resources e comunicado da Shell sobre a aquisição.


4. Thomson Reuters separa o impresso para acelerar a estratégia de IA

Fachada de edifício da Thomson Reuters

Foto: Luke MacGregor/Thomson Reuters — acervo oficial da companhia.

A Thomson Reuters fechou acordo para vender 51% do negócio Global Print à KKR. A empresa receberá aproximadamente US$ 500 milhões no fechamento e manterá 49% da nova joint venture, além dos direitos de propriedade intelectual e do controle editorial sobre o conteúdo.

O negócio continuará distribuindo referências jurídicas e tributárias impressas e livros digitais pelo ProView. Ao mesmo tempo, a Thomson Reuters deixa claro onde pretende concentrar capital e atenção: soluções de IA para áreas jurídica, fiscal, auditoria e compliance.

Por que isso importa

Esta não é simplesmente uma história sobre “o fim do papel”. É uma aula de arquitetura de portfólio. A companhia preserva receita, participação e propriedade intelectual, mas transfere a operação de um ativo maduro para um parceiro especializado. Assim, libera a organização para acelerar onde acredita existir mais crescimento.

A pergunta para sua empresa

Qual unidade ainda gera caixa, mas consome atenção demais da liderança? Nem sempre a resposta é vender tudo. Joint venture, licenciamento, franquia e operação por parceiro podem separar propriedade do ativo de execução diária.

Fonte: comunicado conjunto de Thomson Reuters e KKR.


5. Reflection compra mais de US$ 1 bilhão em capacidade da Nebius

Data center da Nebius em Mäntsälä, Finlândia

Foto: Nebius — data center oficial de Mäntsälä, Finlândia; media kit da companhia.

A startup Reflection AI assinou um acordo superior a US$ 1 bilhão para acessar capacidade computacional da Nebius, incluindo chips recentes da Nvidia. A empresa, criada por ex-pesquisadores do Google DeepMind, desenvolve modelos abertos para competir com plataformas fechadas.

É o segundo compromisso de infraestrutura de grande porte anunciado pela Reflection em poucas semanas. Em junho, a startup também garantiu capacidade da SpaceX; reportagens indicaram pagamentos de cerca de US$ 150 milhões por mês até 2029.

Por que isso importa

O ativo escasso da IA não é apenas talento nem algoritmo. É capacidade computacional disponível na hora certa. Startups estão assumindo compromissos bilionários antes de consolidar receitas na mesma escala porque, sem chips e energia contratados, sequer conseguem competir.

O impacto para empresas menores

Você não precisa comprar um data center, mas precisa evitar dependência cega. Mapeie quais processos críticos usam um único fornecedor de IA, quanto custaria trocar de modelo e quais dados precisariam ser migrados. A vantagem dos modelos abertos não é ideológica: pode ser poder de negociação.

Fontes: Reuters e media kit oficial da Nebius.


6. Prazo tarifário Brasil–EUA vence hoje

Mauro Vieira, ministro das Relações Exteriores do Brasil

Foto: Fernando Frazão/Agência Brasil — Mauro Vieira durante o G20 Social, em 2024.

O prazo legal indicado pelo Representante Comercial dos Estados Unidos para decidir medidas de resposta contra práticas brasileiras vence em 15 de julho. A proposta submetida a consulta prevê tarifas de 25% sobre diferentes produtos do Brasil e se apoia em temas que vão de comércio digital e Pix a propriedade intelectual, etanol e desmatamento.

Até o fechamento desta edição, a decisão final ainda não havia sido publicada. O governo brasileiro argumenta que tarifas amplas também elevariam custos nos Estados Unidos. Segundo documento do Itamaraty, 43 empresas e associações americanas pediram exclusões por falta de substitutos domésticos e risco de repasse de preços.

Por que isso importa

Mesmo empresas que não exportam diretamente podem ser atingidas. Uma tarifa muda pedidos, câmbio, frete e preço de insumos; exportadores pressionados podem redirecionar produtos ao mercado interno, enquanto importadores sentem a reação do dólar.

O que fazer hoje

Não tome uma decisão permanente antes do anúncio, mas prepare três cenários: produto incluído, produto excluído e tarifa adiada. Liste exposição direta aos EUA, fornecedores dependentes de exportação e contratos com reajuste cambial. O objetivo não é prever a decisão; é reduzir o tempo de reação.

Fontes: determinação oficial do USTR e resposta brasileira publicada pela Agência Brasil.


Sinal x ruído

Sinal: empresas continuam investindo cifras enormes em ativos que garantem capacidade, distribuição ou escala.

Ruído: acreditar que todo produto com “IA” no nome receberá orçamento sem provar resultado.

Minha leitura é simples: o próximo estágio da IA será menos sobre encantamento e mais sobre alocação de capital. A tecnologia continuará avançando, mas os vencedores serão definidos por disciplina — de infraestrutura, de portfólio e de retorno.

Agora quero ouvir você: na sua empresa, o orçamento de IA está criando verba nova ou retirando dinheiro de outras prioridades? Responda a esta edição ou compartilhe com alguém que participa dessas decisões.

Até amanhã,

Guilherme Nogueira
Fundador e editor, Luminary News

Luminary News — informação que vale o seu tempo.

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